Sábado, 6 de Junho de 2009

Amaldiçoar [as alturas que isto fez assim]

 

 fotografia de Jorge Soares
 (editada por mim...)
 
 
 
 
e a menina sentou-se ali. Na desventura que lhe encarquilhava o olhar. Que lhe chicoteava o sono. Mas estava na reverência do dever.
 
e a menina escreveu que o pior dia da sua vida [que vida tão pequenina] fora no dia em que começara a crescer. Só porque lhe acrescentaram o entender.
 

e a menina amaldiçoava o dia. Tanto! Que tanto lhe parecia tão pouco. E continuou a escrever. Uma história de assustar. Com ébrias figuras. Com assaltos ao dormir. Com cardos a germinar pelas assustadas paredes do quarto. De noite… até ser dia de começar a escrever… sobre uma abelha-flor que lhe aferroava o crescer.

 

... e a menina ainda não sabia dizer que uma rosa era uma flor. Que das alturas descia. Sem espinhos. Com pétalas da cor do sono. Dos sonhos. De menina...

 

 


Domingo, 24 de Agosto de 2008

sem rede

vidas desgraçadas

 

Hoje, nada de novo por aqui. Uma sexta-feira morna de Agosto. Numa manhã que teima em acordar de férias. Aqui e ali ouvem-se tristezas molhadas. Com água salgada, talvez morna. Seguramente fria. Tranquila e serena. Chora-se o regresso à balbúrdia. Ao ritmo acelerado. Ao trânsito irritado da cidade. No entanto, lá fora corre tudo mais depressa. Os chineses surpreendem-se com a lusa vagareza. Dizem que lá não é assim. Chinesices!

 

Na papelaria da esquina um homem compra o jornal. Um rapazito entra controlado pela mão do pai. Que compra outro jornal. O rapaz protesta. Exige a aquisição de uma qualquer coisa. As lágrimas e lamúrias manchavam a dicção. E exigências. E pedidos. E o progenitor à beira de um ataque de nervos. Para se tranquilizar pede ao catraio que explique. Que precise o que pretende. O miúdo, entre soluços e raivas, elucida que quer outra. Que a que ficou em casa da avó já não serve. Só lá que é uma aldeia parca em gente pequena. Agora que veio de férias, exige uma melhor. Para ser cobiçada pelos amigos. Única. Notável. Quase verdadeira. E assegura que até pode ser. Uma autêntica seria admirável. E senta-se no chão. O pai dá sinais de ceder à envergonha pública. O petiz esperneia exaltações sem calibre. E o pai diz-lhe que sim. E saem os dois. Com a promessa de satisfazer a vontade da criancinha. Os olhos que assistem brilham incrédulos. Os rostos vincam o grotesco da situação. As bocas emudecem a atónita desinteligência. As mãos controlam mutuamente um desmesurado desejo. O garoto valia uma bofetada. O pai, no mínimo, três. E já de saída, o homem esclarece. Desde pequeno que ele é assim, sabem? Sempre gostou de armas. Adora fingir que mata todos lá em casa. E os amigos. Agora teima. São crianças. Temos que lhes fazer a vontade. Coitadinhos! Ele quer uma a sério… viu numa revista de videojogos. Mas para crianças. Bom, vou à procura…

 

Na televisão, as notícias atropelam-se. Postos de abastecimento de combustíveis assaltados de madrugada. Os criminosos abalam com uma caixa multibanco de rojo. E o despiste de viatura roubada. Mais três mortos lá para o norte. Intervalo para escutar a Portuguesa em Pequim.  Depois cinco homens encapuzados, alguns falavam português, três viaturas e explosivos entram em acção. Arrombam as portas traseiras e agarram os sacos com notas. Nada de moedas. Pesam muito e não são a mesma coisa. Uma realidade nunca vista no país. Coisa de profissionais. Bem gizada. Isto de amadores tem que acabar. Pequim que o diga. E o campeão do salto chora lágrimas de total satisfação. Mas é no Norte que um ourives impede um assalto de encapuzados e armados bandidos. E sabe-se que o seu companheiro de profissão morre no Sul. Os ignóbeis acertaram-lhe mesmo. Na praia, aqui bem perto, roubam um BMW para assaltar um posto de gasolina. Uma máquina a sério! E o pobre do polícia, pronto para entregar as chaves que dão acesso a casinhas sociais, é agredido. Mais assalto, menos assalto. E acidentes. E mortos e feridos. As notícias repetem-se. O luso saltador sobe o degrau. Ao peito exibe o orgulho de ser o melhor. Enquanto por cá se fica a saber que a violência doméstica já matou mais este ano que em tempos anteriores. Não há paciência! Trinta mulheres mortas? Bestas! E como se tudo já não fosse muito, eis a mafarrica da lagartixa. Sem permissão, entra no carro e assusta condutor. O réptil provoca o acidente, gera um ferido e foge. Os humanos já não chegam? Francamente!

 

E a corrida às armas dá milhões ao estado. Uns míseros 4,2 milhões de euros em impostos. Que para uso e porte de arma é preciso pagar. A quantidade de armas ilegais é muita, confessam!

 

Desliguei o televisor. Em Pequim já não se houve o hino nacional. E o catraio da papelaria anda a ver muitos filmes. Calma! São situações pontuais. Tudo vai bem, e muito seguro, neste reino de Portugal.

 

 

Fotografia de João Palmela


Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. [Fernando Pessoa]

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